O fenômeno do autodenominado atleta amador

A corrida é um dos esportes mais praticados do mundo (Shutterstock)

Eu corro desde antes de correr virar modinha. Ainda era criança quando comecei a dar voltas por minha Espírito Santo. Três voltas pela manhã. O que dava doze quilômetros. E mais uma volta rápida à tarde. Quatro quilômetros.

Hoje é bonito correr. É bacana. Naquela época diziam que era coisa de doido. Mas eu corria.

Parei por volta dos 14 anos. Comecei a cismar com os comentários. Diziam que eu estava magro demais. Que parecia uma caveira. E coisas do tipo.

Voltei a correr na pandemia. Queria emagrecer. Tomei gosto de novo. Vivi o auge ao correr em Paris. A única maratona para amadores que já aconteceu na história das olimpíadas.

Foi mágico.

Quarenta e dois quilômetros sem parar. Fiz isso três vezes na vida. A sensação ao cruzar a linha de chegada é a de ser imbatível.

Hoje me encontro quase sem correr. Já comecei a ouvir comentários sobre meu corpo. Mas estou numa fase em que ligo pouco para quem se importa demais com a minha vida.

Ainda assim tenho me preocupado com a fase atual da corrida. E faz tempo.

É bonito. É legal. É saudável correr. É bom ver tanta gente praticando o esporte mais democrático do mundo.

A corrida é democracia. Ela permite que alguém corra com um tênis caríssimo. Mas não impede que outro corra descalço. E isso é só um exemplo.

O que não gosto de ver é a cultura da alta performance. Ela está destruindo o que existe de mais legal nesse esporte. Apenas correr. Liberar endorfina. Trotar conversando. Resenhar depois do longão.

Hoje todo mundo se preocupa com o pace. Com o ritmo.

Eu estava nesse nível. Incapaz de curtir o simples ato de correr. Preocupado apenas com a velocidade.

Pra quê?

Percebi isso num domingo recente. Saí para correr sem olhar o relógio. Sem me preocupar com números. No caminho parei para ajudar uma senhora que tentava atravessar uma passarela carregando várias sacolas. Antes eu não teria parado. E talvez muitos corredores de hoje também não parassem. O relógio falaria mais alto.

Vou encerrar com uma reflexão. E ela não vale para quem vive do esporte.

Você já viu alguém que joga pelada toda semana colocar no Instagram que é jogador amador? Então por que tanta gente que corre se apresenta como atleta amador?

Eu já me apresentei assim. Hoje prefiro dizer apenas que corro. E corro mais livre e feliz.

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