
São números difíceis de ler.
Mais difíceis ainda de ignorar.
O Brasil registrou 822.892 nascidos vivos de mães entre 8 e 17 anos. Isso entre 2019 e 2023. É como se 450 crianças nascessem todos os dias de meninas que ainda deveriam estar vivendo a própria infância.
O dado com base em números do SUS assusta.
Cerca de 45 desses partos acontecem diariamente entre meninas com menos de 15 anos. E toda relação sexual nessa faixa etária é considerada estupro de vulnerável pela legislação brasileira.
Por trás dos números existem histórias. Medos. Silêncios.
Quase 75% das meninas de até 14 anos que deram à luz eram negras. Mais de 137 mil casos de violência sexual contra meninas de 8 a 17 anos foram notificados no país entre 2019 e 2024. A violência veio acompanhada de uma gravidez em mais de 22 mil situações.
Os dados reacendem uma discussão necessária.
Como proteger nossas crianças e adolescentes?
Como falar sobre o corpo? Explicar as mudanças da adolescência e orientar sem medo ou tabu?
Ainda hoje muitas famílias evitam essas conversas. A menstruação vira constrangimento. A puberdade vira assunto proibido. O cuidado com o corpo fica para depois.
O problema é que o depois costuma chegar tarde.
Foi observando essa realidade que a fisioterapeuta pélvica e especialista em saúde pélvica e sexualidade Berenice Shakti criou Cartas para Adelaine.
A publicação reúne 25 cartas e um livreto com reflexões. Perguntas. Orientações. Tudo pensado para abrir espaço para diálogos que muitas vezes não acontecem.
O material nasceu da experiência da autora em consultório. Ela percebeu que muitas mulheres chegam à vida adulta sem compreender plenamente o próprio corpo. Não por falta de interesse. Mas por falta de informação e diálogo durante a juventude.
As cartas abordam temas como a primeira menstruação. Consentimento. Autoestima. Cuidados com o corpo e primeiras experiências afetivas.
Sem sermão.
Sem constrangimento.
Com acolhimento.
Nesse país os números gritam. Conversar talvez seja um dos primeiros passos para mudar a realidade.
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