Gonzagão já tinha dado o recado. O jumento merecia respeito. Faltava Brasília escutar.

Tem coisa que o Brasil demora a proteger. O jumento é uma delas.

Ericatarina/AdobeStock

Avança no Senado um projeto que proíbe o abate de jumentos em todo o país. A proposta abre exceção apenas para casos de abate sanitário por doença infectocontagiosa.

Mas essa defesa não começou agora. Luiz Gonzaga já cantava isso há décadas. Em “Apologia ao Jumento” ele tratava o animal como irmão do sertão. Como parceiro de lida. Como parte da vida nordestina. Gonzagão dizia em verso o que agora aparece em forma de projeto de lei: o jumento “ajudou o Brasil a se desenvolver”.

O projeto nasceu de uma sugestão apresentada pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e virou proposta legislativa depois de passar pela Comissão de Direitos Humanos.

A justificativa mistura história. Cultura. Saúde pública.

O argumento é que o jumento faz parte da formação do Brasil. Especialmente do Nordeste. 

Gonzaga chamava o jumento de “nosso irmão” e de “maior desenvolvimentista do sertão”. Na música ele lembra que foi o animal que carregou lenha. Pedra. Cal. Cimento. Água. Feira. Gente. Fez açude. Serviu de montaria. Ajudou o homem na lida diária. Ajudou o sertão a seguir em frente. 

Faltava ao poder público ouvir essa apologia com mais atenção. Tanto é que esse símbolo da resistência do sertão agora corre risco de desaparecer.

O Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal diz que muitos animais são capturados ou comprados e seguem em viagens longas até fazendas e abatedouros. A pele vai para a China onde abastece a produção de ejiao. Uma receita com propriedades medicinais não comprovadas cientificamente. E a carne pode ser exportada ou consumida no próprio Brasil. O jabá.

Os defensores da proibição dizem que o problema não é só moral. É também sanitário. Apontam falta de rastreabilidade. Transporte precário. Risco de disseminação de doenças.

O Senado está discutindo no fundo mais do que o destino de um animal. Discute o que fazer com um pedaço do Nordeste antes que ele desapareça. Gonzagão já tinha dado o recado. O jumento merecia respeito. Faltava Brasília escutar.

“Jumento, meu irmão, eu reconheço teu valor!
Tu és um patriota! Tu és um grande brasileiro! 🎵

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